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Epóxi e fibra de vidro: mitos e verdades

Mito 1: um barco de fibra de vidro é mais resistente que um barco de compensado naval

Mentira! O que torna um barco mais ou menos resistente é a qualidade do projeto. A madeira é um excelente material para construir barcos porque é leve, resistente, facilmente moldável, e permite trabalhar com cascos de grande espessura (portanto com grande momento de inércia) e baixo peso. Para obter resistência equivalente da madeira com fibra, você precisa aumentar a espessura do casco (a fibra é 5 ou 6 vezes mais densa que a madeira) deixando-o muito mais pesado que um similar de madeira, ou então partir para a construção sanduíche, bem mais cara e complexa.

O compensado naval é um material compósito de grande resistência, e uma vez selado com resina epóxi, é completamente impermeável e muito durável, tanto quanto fibra de vidro saturada com resina poliéster (como são feitos os veleiros e lanchas de fibra comerciamente).  Porém, você pode adicionar resistência à abrasão na superfície com uma fina camada de tecido de fibra de vidro saturada com resina epóxi. Esta camada, por si só, não adiciona resistência mecânica ao casco, mas evita que no impacto com pedras, por exemplo, a água entre em contato com a madeira e inicie um processo de apodrecimento. Já num barco de fibra e resina poléster, se você arranha o gel e expõe a resina poliéster à ação da água, inicia-se um processo de osmose (absorção de água pela resina) que progressivamente enfraquece o casco e aumenta o peso do barco.

Mito 2: Barcos de madeira dão muita manutenção

Mentira! Antigamente os cascos de barcos de madeira eram feitos de cavernas sobre as quais se fixavam tábuas de madeira. Era efetivamente impossível selar o espaço entre as tábuas, porque a expansão e contração da madeira devido a variações de umidade e temperatura sempre levava a fissuras por onde a água sempre dava um jeito de passar. Por isso os construtores de embarcações, ao invés de tentar reduzir o espaço entre as tábuas, o aumentaram, e no rasgo entre elas colocavam o chamado “calafeto”. No início era feito de algodão embebido em piche. Mais recentemente se passou a usar uma mistura de gesso cré e zarcão. O importante é que o calafeto não podia nunca secar, pois sua flexibilidade é que mantinha a junta selada enquanto a madeira trabalhava.

Por isso, a cada dois anos no máximo, você tem que tirar seu barco de madeira da água e calafetar de novo, um trabalho demorado e cada vez mais caro. A má fama dos barcos de madeira vem daí.

Mas com o advento do  compensado naval, e em especial do surgimento da resina epóxi, que adere muito bem à madeira e é completamente impermeável, um barco construído em madeira dá tanto (ou menos) trabalho quanto um barco de fibra. Se adequadamente selado e pintado, a madeira não absorverá umidade, manterá sempre as mesmas dimensões e peso, e a mesma resistência mecânica.

Mito 3: Barcos de fibra são mais leves que barcos de madeira

veleiro em madeira com resina epóxi, resina epoxi para construir barcos, resina epoxi barata, preço da resina epóxiMentira! Embora cascos de madeira tenham espessura maior que cascos de fibra, o fato da madeira ser muito mais leve que a resina poliéster faz com que barcos de madeira possam ser até mais leves que barcos de fibra, para uma mesma aplicação. Esta idéia errônea se deve ao fato de que os barcos de madeira antigos eram de fato muito pesados, mas isso porque o conceito de veleiro da época era bem diferente do de hoje. E não havia nem compensado naval nem resina epóxi. Outro argumento dos defensores da fibra é que os barcos de regata são todos feitos de fibra. Ora, não compare um veleiro Open 60 com um O´Day 23! Embora o O´Day seja um excelente barco, ele não tem nada a ver com os modernos barcos de regata, com cascos de construção sanduíche em fibra de carbono, fibra de vidro e resina epóxi.

Mas não pense que não é possível construir um excelente barco de regata em madeira! Os irmãos Gougeon, fundadores da West Epoxi e criadores do sistema West de construção de barcos, fizeram vários barcos que venceram regatas muito competitivas com barcos de madeira montados e selados com epóxi (ver foto), mais leves e tão rápidos quanto barcos de fibra.

Mito 4: a resina epóxi é muito cara

Mentira! A resina epóxi é mais cara que a resina poliéster, mas se você quer fazer uma comparação justa, é preciso pesar não apenas o preço por litro de resina, mas a quantidade total de resina usada por metro quadrado de casco laminado. O rendimento da resina epóxi na laminação da fibra é melhor que o da resina poliéster, e se você está construindo um barco de compensado naval, você não precisa nem fibrar se não quiser, o que reduz ainda mais a quantidade de resina epóxi que você vai precisar. Entretanto, há projetos, como os do Cabinho, que utilizam uma combinação de chapas de compensado naval e fibra de vidro saturadas com resina poliéster. No caso, trata-se de um casco de poliéster com estrutura de madeira, já que o casco de compensado propriamente dito é fino demais para ser estruturalmente importante. Se eu construísse um barco dele, aumentaria a espessura do compensado naval e aplicaria apenas uma camada de fibra saturada com resina epóxi para selar e proteger a superfície. Seria mais barato, mais fácil de construir e mais fácil de dar acabamento.

Resina Epóxi e Compensado Naval: a melhor alternativa para o construtor de veleiros

Conclusão: resina epóxi e compensado naval são uma combinação imbatível se você quer um veleiro leve, robusto, durável e fácil de construir. Experimente laminar um casco de 6, 7mm de fibra de vidro saturada com resina poliéster, depois lixar tudo para enfim dar o acabamento (massa, lixa, primer e pintura, ou então gelcoat). Fibra de vidro entrando pelos poros, dias e dias de coceiras, o cheiro da resina poliéster, que vai se sentir na casa inteira mesmo com o frasco tampado, e os dias e dias lixando tudo. Fibra  e poliéster são para estaleiros, para se aplicar sobre moldes fêmea, e desmoldar já com acabamento final.

Para construir um barco em casa, aposte na plasticidade, resistência e leveza do compensado naval, colado com resina epóxi apropriada para colagem de madeira, e lamine uma fina camada de fibra de vidro (tecido bidirecional de 100 ou 200g/m2) saturada com resina epóxi de laminação, aplique massa de aparelhar epóxi e pronto: é só lixar e pintar com PU naval. Dura para sempre e tem excelente acabamento. Além disso, o custo é menor, porque você usa bem menos resina.

 

Fonte: Gustavo Dantas